OPINIÃO DO IBRAOP SOBRE A QUEDA DO VIADUTO DA MARGINAL, EM SÃO PAULO


Opinião do Ibraop
O VIADUTO QUE CAIU NA MARGINAL PINHEIROS

 

Mais uma obra de engenharia teve colapso parcial de sua estrutura. Desta vez, um dos pilares que dão suporte a um viaduto de grande porte, situado na Marginal Pinheiros, em São Paulo, não resistiu ao descaso da administração pública e cedeu, levando consigo uma parte daquela via elevada. As consequências mais imediatas já são conhecidas de todos, os prejuízos começam a despontar e a situação, que deveria ser uma exceção, está se mostrando como regra no Brasil.

 

No início de 2018, situação similar aconteceu em Brasília, em um viaduto do eixo sul. Em 2005, a ponte sobre a represa do Capivari, em Campina Grande do Sul, situado na rodovia BR 116, principal ligação entre Curitiba e São Paulo, também desabou, causando a morte de um motorista de caminhão, e os já conhecidos transtornos e prejuízos.

 

Certamente outros casos já aconteceram, conhecidos ou não do grande público e, infelizmente, outros não tardarão a acontecer.

 

Desde o início de sua existência, em 2000, o Instituto Brasileiro de Auditoria de Obras Públicas tem manifestado aos agentes públicos, em seus eventos e em reuniões de trabalho, o desmantelamento dos quadros técnicos de engenharia. Isso vem acontecendo nos diversos órgãos responsáveis por obras públicas e traz consequências danosas à infraestrutura do país.

Esses fatos não se devem somente à má gestão de cada administração, ou à falta de recursos financeiros. Trata-se da fixação de uma contracultura marcada pelo descaso em relação à preservação do patrimônio público, neste caso representado por obras rodoviárias. Aos olhos da população, as pontes e os viadutos aparentam ser estruturas eternas, constituindo-se de peças de concreto que, uma vez moldadas, passam a se comportar como rochas, sólidas e pouco suscetíveis às intempéries, e que podem ser deixadas ao tempo sem qualquer cuidado.

 

Porém, ao contrário do que parece, a necessidade de conservação e de monitoramento dessas obras é constante, tendo em vista a existência de diversos componentes construtivos, tais como aparelhos de apoio, sistemas de drenagem, sistemas de protensão e juntas de dilatação, por exemplo, bem como todas as limitações de carga e modos de operação rodoviária. A tarefa de conservar e de monitorar as obras cabe a um corpo técnico especializado, composto basicamente de engenheiros e de arquitetos, de preferência capacitados e bem assistidos por equipamentos para bem realizarem seu trabalho. E é aí que reside o problema.

 

O setor público vem se desfazendo de seu corpo técnico e, com ele, perdendo o conhecimento próprio de suas experiências e das tecnologias, assim como o histórico das construções já erguidas.

 

Veja-se que, no caso do viaduto da marginal do rio Pinheiros, construído na década de 1970, a administração não consegue localizar os projetos de engenharia. Essa situação é prova do descaso e evidência da perda dos conhecimentos necessários sobre aquela construção. Afinal, o projeto é também o registro de todos os detalhes da obra. Nele estão desenhadas as armaduras, as dimensões das peças e todos os demais sistemas que compõem aquela estrutura. Esses elementos são úteis para sua conservação e operação e, em caso de sinistro, indispensáveis para estudo da melhor solução para o problema.

 

Com a perda da memória de como foi concebida aquela via, a administração vai agora recorrer a exames de prospecção para descobrir o que existe e, diante da imprecisão inerente aos levantamentos, provavelmente, adotar soluções mais conservadoras e consequentemente mais caras.

 

A visão estreita que privilegia a pseudo economia de recursos, que corta gastos de setores de inteligência e de planejamento, como os da engenharia, mostra agora o que a ignorância dos governantes pode proporcionar em prejuízos financeiros à nação.

 

É preciso, urgentemente, investir em quadros técnicos de engenharia permanentes no setor público, dotando-os de profissionais capacitados e bem equipados, em quantidade suficiente para atender à demanda de construção e de manutenção da infraestrutura nacional.

 

Certamente que os valores a serem empregados em planejamento, tanto das construções como de suas manutenções, serão muito inferiores aos gastos diretos e indiretos a serem despendidos a cada colapso de estrutura ou de obra emergencial, provocada pelo descaso de agentes políticos incautos.

 

Instituto Brasileiro de Auditoria de Obras Públicas
www.ibraop.org.br

 

Foto de Capa: VEJASP

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